O crescimento acelerado das apostas online no Brasil tem acendido um alerta na saúde pública. Em resposta ao aumento de casos de sofrimento psíquico associados às chamadas "bets", o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a ofertar teleatendimento em saúde mental voltado a pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas.
Em 2025, o SUS realizou mais de 6 mil atendimentos presenciais relacionados ao tema, número que tende a crescer diante da popularização dessas plataformas. Com a ampliação do acesso digital, a expectativa do Ministério da Saúde é justamente alcançar pessoas que, até então, não buscavam ajuda.
A iniciativa, coordenada pelo Ministério da Saúde, prevê inicialmente até 600 atendimentos mensais, com acesso gratuito por meio do aplicativo Meu SUS Digital, disponível 24 horas por dia.
Para o doutor em Psicologia e professor da Afya Parnaíba, Matheus Barbosa da Rocha, esse cenário ajuda a explicar por que o teleatendimento pode ser decisivo para ampliar o acesso ao cuidado. "Lidar com questões de saúde mental significa a gente estar atravessado por vergonha, medo, insegurança, julgamentos, preconceitos, tanto por parte da sociedade como também as percepções que nós construímos sobre si próprio", afirma.
Ele destaca que, quando esse contexto se soma à dependência em apostas, fenômeno cada vez mais presente, novas camadas de dificuldade surgem. "A gente acaba trazendo outras questões, como muitas vezes o movimento de achar que o profissional de saúde vai estar ali para julgar", pontua.
Para o profissional, o atendimento remoto aparece como uma porta de entrada mais acessível. "A terapia ou o acompanhamento psiquiátrico na dimensão remota, ele aparece como uma estratégia muito interessante de que às vezes a pessoa já reconheceu que ela precisa de ajuda, ela quer dar esse primeiro passo, mas ela ainda não tem a coragem de ir presencialmente", explica o psicólogo.
Além da barreira emocional, fatores práticos também influenciam. "Às vezes enfrenta a barreira do tempo. A pessoa tendo um lugar seguro, seja em casa, seja em outro lugar, ela consegue fazer esse acompanhamento da forma que é possível", acrescenta.
*Quando o jogo deixa de ser lazer*
O desafio, no entanto, começa antes mesmo do acesso ao tratamento: identificar quando o comportamento deixa de ser recreativo e passa a representar risco. Segundo Matheus Barbosa, existem diferentes níveis nessa relação. "Nós temos o uso recreativo, nós temos o uso agravado e nós temos a famigerada dependência, ou como a gente conhece no senso comum, o vício", explica.
O ponto de virada está nos prejuízos gerados. "No momento em que eu começo a perder essa funcionalidade, essa autonomia da minha vida, aí eu tenho uma questão", alerta.
Entre os principais sinais estão impactos financeiros e rupturas nas relações pessoais. Outro indício importante é o ciclo repetitivo típico da dependência. "A pessoa fica naquele velho ciclo que é muito comum com o uso de substâncias, que é 'ah, só mais uma vez, só mais uma vez'", diz.
Esse processo, segundo ele, também envolve negação e resistência à ajuda. "Há todo um ciclo quando a gente chega nessa dependência, que começa na negação e que vai terminar na aceitação", completa. Diante desse cenário, o especialista reforça que o papel do novo serviço do SUS é muito importante.
