terça-feira, 24 de julho de 2018

José Pinheiro Machado

Um dia desses, dando aula no SENAC, de Estudos Regionais Locais, uma aluna me pediu para que falasse sobre o deputado José Pinheiro Machado. Ela mora na rua que tem o seu nome. Aliás, avenida.
Eu falei muito.
A jovem ficou admirada – “como é que o senhor sabe tanto de cor?”
Disse-lhe que fora seu secretário, na empresa Pedro Machado S/A, durante 10 anos (1950/1960). E no Rotary, em que ele exerceu várias funções, eu era seu secretário executivo.
Deputado José Pinheiro Machado
Vou lembrar o que eu disse à aluna:
- José Pinheiro Machado nasceu em Parnaíba, no dia 25 de novembro de 1918, filho de Pedro Machado de Moraes e Maria de Lourdes Pinheiro Machado (Dona Lurdinha). Seus estudos iniciais foram em Parnaíba, depois em capitais do país e nos Estados Unidos.
Voltando a Parnaíba, casou-se com Dinah Freitas Diniz Machado, tendo quatro filhos: Renato, Daina, Cynthia e Ivana.
Diretor da firma comercial de seu pai, muito operosa e atuante na época, ele encontrava tempo para prestar serviços à cidade, fundando e dirigindo entidades e participando de campanhas sociais e filantrópicas.
Algumas de suas atividades:
- vereador em dois mandatos e presidente da câmara municipal
- vice-presidente da Companhia de Luz e Força de Parnaíba
- diretor da Telefones Norte do Piauí S/A
- presidente da Águas e Esgotos do Piauí S/A
- diretor da Associação Comercial de Parnaíba
- fundador da Sociedade Dramática de Parnaíba
- fundador e primeiro presidente do Igara Clube
- fundador do Instituto Cultural Brasil/Estados Unidos
- fundador e professor da Faculdade de Administração de Parnaíba
- rotariano, foi presidente, governador e conselheiro internacional
- deputado federal em três mandatos consecutivos, foi membro efetivo da comissão de relações exteriores, das comissões de economia e do Polígonos da Seca e 3º secretário da câmara dos deputados.
Busto do Ilustre parnaibano, Deputado Federal José Pinheiro Machado, em frente ao terminal rodoviário de Parnaíba (Foto: Darklise Albuquerque/Jornal da Parnaíba)
Terminei a explicação e a aluna que continuava atenta, agradeceu satisfeita.
José Pinheiro Machado era, pra mim, um chefe, um amigo, um mestre. Tínhamos um relacionamento altamente salutar no trabalho, na sociedade, na família.
Eu iniciava no jornal, rádio, e ele me ouvia, me lia, e emitia opiniões, sugestões, e vez por outra, me dava noticias. Para quem estava iniciando, era, mais que um estimulo, uma força muito grande.
Até as músicas características do meu programa radiofônico ele escolhia. E me dava os discos. A primeira que escolheu, lembro bem, foi “Tea for Two”. Esse disco ele me trouxe dos Estados Unidos.
Mesmo depois que deixei a firma, ele se comunicava comigo, através de telefonemas, bilhetes e pessoalmente.
Quando ia assumir a câmara federal, pela primeira vez, quis me levar para Brasília. Eu de bobo, bobão, não fui. Apesar de gostar muito dele, gostava mais de minha mãe, que não iria em hipótese alguma. E gostava, também, e continuo gostando, e muito de Parnaíba. Não estou arrependido.
Pinheiro Machado
Visitando a câmara pela primeira vez, ele me apresentou todos os seus assessores. O principal era um paulista, de nome Rubem. Ele disse: “Você não quis vir e eu arranjei outro Rubem, também bom”.
Fazia gosto de ver o expediente no gabinete do deputado que era secretário, e o seu relacionamento com os 18 funcionários à sua disposição. Em plena revolução, a mordomia era grande. Na cantina do gabinete, água mineral, refrigerantes de todas as espécies, água de coco, biscoitos finos, frutas e o tradicional cafezinho. Só não tinha mesmo bebidas alcoólicas.
A elegância predominava. Os homens, todos de paletó e gravata. As moças e as senhoras, muito bem vestidas, bem penteadas e maquiadas, perfumadas. Até o hálito delas era cheiroso. Educadas, finas, tratáveis, sorridentes e envolventes.
O deputado, quando chegava pela manhã, todos se levantavam e ao seu cordial bom dia, respondiam reverentemente: “Bom dia, senhor deputado. O senhor está bem? Como passou a noite? E a família”?
Passando para a sua sala, ele ia cumprimentando, com a mão, um por um.
Era um ambiente muito bom.
Daqueles de que a gente gosta.
Gente fina é outra coisa, diz Elvira Raulino.
Passei vinte dias em Brasília, e todo dia ia à câmara. O motorista, num carrão oficial toda manhã, por ordem do deputado, parava em minha porta e nem buzinava, nem chamava. Quando eu saia dele, após me cumprimentar, abria a porta do carro, depois a fechava. E perguntava se eu não teria que passar em algum lugar, antes de ir à câmara.
Educadíssimo.
Na empresa, quando diretor, jamais chamou atenção de qualquer funcionário. Por qualquer deslize, mesmo involuntário, seu Corintho esbravejava, seu Pedro não perdoava, seu Oscar Vaz passava meia hora mostrando o certo, seu Lucimar, chamado por muitos de “aquele santo”, falava baixinho, reclamando.
Pinheiro Machado não falava, mas jogava um olhar reprovativo no funcionário faltoso. A turma dizia que aquele olhar matava qualquer um. Que era pior do que xingamento ou pancadas.
Educado, fino, nunca se ouviu um palavrão de sua boca.
Dizia que a língua portuguesa é tão cheia de palavras bonitas, e porque dizer nomes feios?
Mas um dia, indo para casa com ele, em seu carro, ao passarmos em frente o Grupo Escolar Miranda Osório. À época Ginásio Parnaibano, um estudante pulou do muro, pisando no calçamento Pinheiro Machado se assustou e, motorista de primeira que era (acostumado a dirigir nos Estados Unidos), conseguiu não atingir o garoto, freando o carro quase em cima dele.
O garoto saiu correndo e Pinheiro Machado, refeito do susto e olhando para ele, que já ia longe, num ímpeto de desabafo, disse em voz alta: “Filho da p...”.
Eu, que nunca tinha ouvido semelhante frase de sua parte, também refeito do susto, desatei a rir.
Ele me olhou, um tanto encabulado.
Atencioso, até afetivo, para comigo, toda vez que viajava para fora do Brasil, fosse para a empresa, de recreio, do Rotary ou da câmara, me mandava cartões postais e quando chegava me trazia presentes.
Gravatas, giletes, relógios, perfumes e até um simples souvenir. O certo é que não esquecia. Gostava de agradar.
O Distrito 449, agora 4490, era o maior do mundo, em extensão territorial, abrangendo os estados do Ceará, Piauí, Maranhão, Pará, Amazonas e os territórios do Amapá, Acre e Rondônia, num total de 4.308.983 quilômetros quadrados.
O Distrito, entregue a “medalhões” (homens ricos velhos e cansados), estava abandonado, liquidado, atrasado. Praticamente sem funcionar.
O governador parnaibano depressa o soergueu. Fez reeditar a carta mensal, pôs em dia a correspondência, os pagamentos. O intercâmbio voltou a funcionar. A direção internacional lhe mandou moção de aplausos. O presidente Harold Thomas se tornou seu amigo pessoal.
Pinheiro Machado visitou, como governador, todos os clubes do distrito, espalhados em 27 cidades e capitais, foi um trabalho árduo, mas gratificante. Quando podia, eu ia com ele, como no caso da X Conferência do Distrito, em São Luis do Maranhão, no ano de 1960.
Seu Pedro Machado tinha raiva quando via a mesa dele cheia de papéis do Rotary, cartas, boletins, telegramas, impressos outros que chegavam todo dia. Era muito. Tinha raiva, mas não queria desgostar o filho querido, o mais querido, e seu sócio.
E eu quem pagava o pato.
Ele, na ausência de Pinheiro Machado, olhava a sua mesa, com um monte de papéis e dizia:
- “Diabo de tanto papel é esse? (e passava a mão na cabeça, na careca).
“Rasga isso, menino. Isso não dá dinheiro, só trabalho e despesa”.
Mas com todo esse trabalho, os encargos e os afazeres na empresa não atrasavam e nem eram prejudicados. Para o Rotary, trabalhava, ele e eu, à noite, às vezes entrando pela madrugada. No escritório ou em sua residência. Vez por outra trabalhávamos no sábado e no domingo.
O desembargador Salmon Lustosa Nogueira me deu, certa vez, parabéns, porque soube que Pinheiro Machado fizera um importante trabalho na governadoria do Rotary e que eu era o seu braço direito, dividindo os louros do governador comigo.
Depois que deixei a empresa e ele também, para ser deputado, a amizade continuou. Jornalista, qualquer escrito que fazia para os jornais daqui, com um bilhete, dizendo no final: “Ponha as vírgulas e os acentos, você que gosta tanto disso”.
Eu, brincando, lhe dizia: “Quem gosta é a gramática e eu a obedeço fielmente”.
Eu e o Dr. Alcenor Candeira.
Num desses bilhetes, Darcy Nóbrega de Oliveira, minha colega de trabalho, viu no final; “Do sempre amigo”.
Estranhou e disse: “Ele não devia dizer isso”.
Eu: “Por que”?
Ela? “Porque rico não é amigo de pobre”.
E quem lhe disse que eu sou pobre?
Pobre é o cão.
E o governador Mão Santa diz muito isso, quando dizem que o Piauí é um estado pobre.
Por Rubem da Pascoa Freitas
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