Proposta pelo deputado Gustavo Neiva (PP ), a reunião reuniu prefeitos, vereadores, representantes do setor produtivo, lideranças do agronegócio e representantes do Executivo estadual. O encontro teve como foco principal os efeitos da ampliação do contrato da Transcerrados, que passou de aproximadamente 200 quilômetros para mais de 500 quilômetros de extensão, elevando também o número de praças de pedágio de quatro para dez.
Ao abrir os debates, Gustavo Neiva afirmou que o aditivo contratual alterou significativamente o projeto originalmente apresentado e alertou para as consequências sociais da medida. Segundo o parlamentar, a proposta que nasceu com o objetivo de garantir a conservação das rodovias acabou gerando preocupações sobre aumento do custo de vida e impactos diretos para moradores e produtores rurais.
A audiência contou com a presença do prefeito de Uruçuí, Gilberto Júnior, que demonstrou preocupação com os efeitos da medida sobre a economia local e a mobilidade da população. Em sua fala, o gestor destacou que a região não foi consultada previamente sobre a criação das novas praças de pedágio e alertou para o risco de prejuízos ao desenvolvimento do município.
Para o prefeito, a cobrança sucessiva ao longo das rodovias pode encarecer insumos, elevar custos logísticos e dificultar a circulação de trabalhadores, empresários e cidadãos comuns. Gilberto Júnior ressaltou ainda a importância econômica de Uruçuí para o estado, lembrando que o município é um dos principais polos de arrecadação e produção do Piauí, defendendo que o Sul do estado merece ser ouvido antes da implementação de medidas com tamanho impacto econômico.
Também participou da audiência o prefeito de Bertolínia, Rodrigo Martins, que apresentou situações práticas enfrentadas por moradores da região. Ele relatou casos de trabalhadores que poderão ser obrigados a pagar pedágio diariamente para percorrer pequenas distâncias entre suas residências e seus locais de trabalho, situação que, segundo ele, exige esclarecimentos e soluções por parte do Governo do Estado.
Representando o Executivo estadual, esteve presente Demerval Nunes, diretor de Monitoramento de Contratos de PPPs e Concessões da Superintendência de Parcerias e Concessões (SUPARC/SEAD). Durante a audiência, ele defendeu que os estudos técnicos continuam em andamento e afirmou que mecanismos de integração tarifária estão sendo avaliados para evitar cobranças sucessivas em determinados trechos.
Segundo Demerval, as definições sobre eventuais isenções e modelos de cobrança dependerão dos estudos que ainda estão sendo realizados e deverão ser concluídos até o final de 2026. A explicação, entretanto, não foi suficiente para dissipar as preocupações apresentadas pelos participantes.
O setor produtivo teve participação expressiva no debate. Representando a Associação dos Produtores de Soja do Piauí (Aprosoja-PI), o diretor executivo Rafael Maschio destacou a preocupação dos produtores com os impactos decorrentes dos aditivos contratuais. Segundo ele, o modelo inicialmente apresentado previa quatro praças de pedágio ao longo de 276 quilômetros, cenário que mudou substancialmente após a ampliação do contrato.
Maschio criticou o que classificou como uma mudança repentina das condições originalmente estabelecidas e afirmou que, enquanto as estruturas de cobrança avançam rapidamente, obras consideradas prioritárias pelos usuários ainda aguardam solução. Entre os exemplos citados está a chamada "Curva da Morte", trecho frequentemente apontado como um dos mais perigosos da região.
A audiência também contou com a participação do empresário, produtor rural e presidente estadual do Partido Liberal (PL), Thiago Junqueira, uma das principais lideranças do agronegócio piauiense. Em sua manifestação, ele fez críticas à carga tributária incidente sobre o setor produtivo e argumentou que os produtores já contribuem significativamente para o financiamento da infraestrutura por meio de impostos e contribuições específicas.
Junqueira afirmou que a ampliação dos pedágios se soma a outros custos enfrentados pelo setor, aumentando a preocupação dos produtores quanto à competitividade da região. Sua participação reforçou o posicionamento de diversos empresários presentes, que defenderam maior previsibilidade e segurança jurídica para investimentos no Sul do estado.
Outro ponto amplamente debatido durante a audiência foi a forma como ocorreram as alterações contratuais. Diversos participantes questionaram o fato de que o aditivo responsável pela ampliação do projeto tenha provocado mudanças significativas em relação ao contrato originalmente conhecido pela população.
A percepção manifestada por prefeitos, vereadores, produtores e empresários foi a de que houve uma mudança substancial das regras inicialmente apresentadas, sem que houvesse um processo amplo de diálogo com os municípios diretamente impactados. Para muitos participantes, a discussão não se resume à existência ou não dos pedágios, mas à necessidade de que decisões dessa magnitude sejam acompanhadas de transparência, participação social e ampla comunicação com a população.
Representando o Legislativo municipal de Uruçuí, vereadores também manifestaram preocupação com os reflexos da medida para estudantes, trabalhadores, comerciantes e pequenos produtores. A vereadora Tércia Ribeiro afirmou que a população teme ficar "encurralada" por cobranças que podem dificultar o deslocamento diário e comprometer atividades econômicas locais.
Apesar das divergências apresentadas ao longo da audiência, houve consenso sobre a necessidade de aprofundar o diálogo entre Governo do Estado, municípios e sociedade civil. A presença de prefeitos, vereadores, empresários, lideranças do agronegócio e representantes dos produtores demonstrou que o tema ultrapassa questões administrativas e afeta diretamente a vida de milhares de piauienses.
Ao final dos debates, Gustavo Neiva voltou a defender que qualquer medida relacionada à ampliação dos pedágios seja precedida por amplo debate público. Para os participantes, a audiência cumpriu um papel importante ao permitir que a população fosse ouvida e apresentasse suas preocupações diante de mudanças que podem impactar a economia regional, o transporte de cargas, o custo de vida e a competitividade de uma das regiões mais produtivas do Piauí.
Mais do que uma discussão sobre tarifas, a audiência revelou uma reivindicação comum entre os presentes: que grandes decisões sobre infraestrutura sejam construídas com diálogo, transparência e participação efetiva daqueles que serão diretamente afetados por elas.
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